Fantasmas das delações

Por: Paulo Figueiredo - Advogado e jornalista

Terça Feira, 12 de Setembro de 2017


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Os fantasmas das delações continuam sobrevoando os arraiais políticos e assustam os delinquentes do poder. Tem sido assim, desde as fases inaugurais da Lava Jato. No final os investigados abrem a boca, presos ou soltos. Há exceções, como Dirceu e Vaccari, que ainda seguram a barra, mas não se sabe até quando.

De início, potenciais incriminados agarram-se a uma espécie de habeas corpus preventivo, via declarações elogiosas e palavras de conforto a quem já foi apanhado. Mais tarde, feita a delação e revelados os partícipes do crime, restam bordoadas. Veja-se o que Lula dizia de Antônio Palocci: “É meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do país. Ele tá trancafiado, mas não tenho nenhuma preocupação com delação dele”. Agora, expostos os crimes praticados pelo ex-presidente, não passa de um reles mentiroso e delator. Convém esquece r que Palocci foi fundador do PT, articulador das candidaturas de Lula e Dilma a presidente, ministro da Fazenda, chefe da Casa Civil e interlocutor confiável dos governos lulopetistas junto aos setores empresariais. Dilma foi mais longe na estupidez. Tratou como ‘canalha’ seu ex-ministro e o comparou aos ‘cachorros’ dos tempos da ditadura, que entregavam os demais membros do grupo, quando presos pelos órgãos de repressão.

O que ninguém pode negar é que a delação de Palocci caiu como bomba de muitos megatons sobre Lula e o núcleo político do PT, em razão de sua intimidade com o partido e com suas lideranças mais expressivas. Seus efeitos são devastadores e inviabilizam de vez o retorno do ex-metalúrgico ao comando do país. Mudando o que deve ser mudado, vê-se igual intensidade das delações de Sérgio Machado e Lúcio Funaro sobre o PMDB e o atual centro de poder alojado no Palácio do Planalto. Nas duas situações, a velha e cansada tática usada na tentativa de desqualificar os d elatores, repetitiva do bordão de que foram obrigados a dizer o que disseram, como forma de escapar da prisão e da condenação criminal.

Os envolvidos nunca enfrentam os fatos e sempre procuram sair pela tangente. No entanto, no conjunto dos elementos probatórios emergem induvidosas as ações criminosas, na medida em que há harmonia entre depoimentos oriundos das mais diversas fontes. Tem-se exemplo significativo na comunhão de declarações de Antônio Palocci e Emílio Odebrecht, que confirmaram o encontro de Lula e Dilma na sede do governo com o proprietário da Odebrecht, no dia 30 de dezembro de 2010, ocasião em que foi selado o ‘pacto de sangue’ da corrupção.

As provas colhidas com as gravações, depoimentos e documentos oferecidos por Joesley Batista e Ricardo Saud subsistem, hígidas e incontestáveis. Já foram presos e o acordo de delação que celebraram com o Ministério Público pode ser revisto ou revogado. Como gigantesco ectoplasma continuará amedrontando a canalha. Acresça-se que na progressão das investigações novos fantasmas ainda mais aterradores surgirão, como deverá acontecer com a delação de Geddel Vieira Lima. Se Funaro representa ameaça de grandes proporções, imagine-se o que não vir&aa cute; com o ‘enfant gâté’ de Temer, o Geddelzinho, vocação inata para o delito, que se desfaz em lágrimas diante de qualquer prisão, como ocorreu na presença do juiz federal Vallisney de Souza Oliveira e agora na Polícia Federal.

Brasília continuará dominada por fantasmas, mais vivos do que nunca, que se materializam nas páginas de processos que exibem as vísceras da República dilacerada pela corrupção e pela indecência.

paulofigueiredo@uol.com.br

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