Pedinte, mas esperta

Por: José Afonso B. de Guedes Vaz - Advogado e membro da APL

Terça Feira, 07 de Novembro de 2017


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O hábito de pedir dinheiro emprestado, por parte de algumas pessoas, é muito comum.

Outras, contudo, não admitem a hipótese, ainda que bastante necessitadas, quiçá, endividadas. Por outro lado, aqueles que recebem apelos a propósito de empréstimos, via de regra se negam a tanto, seja a quantia de pouca monta e o pior, quando se trata de valor expressivo, simplesmente o eventual credor se faz de surdo ou de desentendido.

Conversando a respeito com uma amiga, já bem idosa e por isso mesmo experiente, a quem dedico especial carinho e amizade, fez-me contar um episódio relatando-me o ocorrido na longínqua cidade de Campos onde, por muitos anos, residiu em uma pensão cujos proprietários eram estrangeiros, cuja esposa narrou à minha amiga o que se passara entre ela e a pessoa a quem estava acostumada a emprestar dinheiro.

Assim é que, por dispor de bom coração, atendia, vez por outra, pedidos de um senhor que a procurava em busca de ajuda financeira, segundo o beneficiário, sempre “a título de empréstimo”, como se a bondosa criatura que lhe entregava o dinheiro não soubesse que a devolução da quantia nunca se operaria.

E assim ocorreu por algum tempo; entretanto, certa vez, aquela que nunca falhara com relação ao pedinte decidiu mandar lhe dizer que estava no banho e, por conseguinte, não poderia atendê-lo.

A portadora do recado cumpriu sua missão, retornando, logo após, às suas atividades; contudo, o pedinte acostumado a “arrancar” dinheiro, com facilidade e sem nunca ter que insistir no pleito, retornou à pensão, horas depois, insistindo no apelo. Ocorre que a proprietária da hospedaria naquele momento estava, realmente, a se banhar, depois de um árduo dia de trabalho, tendo sua auxiliar se dirigido à porta da casa informando que D. Olga não poderia atendê-lo porquanto estava no banho.

Foi aí então, que aconteceu o inesperado, quando o pedinte, com “ares” de simplicidade e humildade, saiu-se com a seguinte resposta: “nunca soube que pessoas da nacionalidade de D. Olga tomavam dois banhos por dia!”.

Após o diálogo, só não me foi relatado se o pedinte retornou à casa de D. Olga; todavia, certo estava o poeta quando escreveu:

“Seu cinismo é de tal monta, / que, apesar de não ser mau, / na cidade, já desponta, / como um bom cara de pau”.

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