Sinos, cólera e a vida que se alimenta da vida

Por: Diana Bonar

Segunda Feira, 19 de Junho de 2017


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O templo budista de Wat Saket fica no topo de uma montanha. Lá de baixo é possível ouvir seus milhares de sinos ressoando ao vento. São 344 degraus para chegar até lá. No caminho, jardins belamente decorados com flores, água corrente e estátuas ,chamam à atenção pela a harmonia que transpassam. É comum ver os monges com suas vestes laranjas caminhando pelo local. O som agudo dos vários sinos pequenos, junto ao som grave dos sinos grandes e o resoar da reza dos monges, compõe uma orquestra zen agraciada com as flores de lótus, cuidadosamente colocadas em grandes jarros de cerâmica.

Ao descer a longa escadaria, ao lado de um grande sino, havia uma opção de outro caminho. Ao descer uma escadinha curva, me deparei com uma obra de arte aterradora e muito realista, e no mesmo instante de zen passei para um estado de apreensão e curiosidade. Eram abutres enormes devorando corpos humanos, arrancando nacos de carne, eram vários deles. Competiam pelos pedaços e restos de ossos. Na mesma composição um homem de cócoras observava atentamente a cena, sem sinal de nojo ou desespero. Simplesmente contemplava, junto com outros a sua volta.

Aqueles sinos mágicos, os abutres devoradores de gente morta e a contemplação pacífica me deixou intrigada. No final do século XIX o sudeste asiático foi assolado por uma epidemia de cólera. Se antes os mortos eram separados por castas e posição social, agora eles viraram um único monte de carne contaminada e sem discernimento. Os corpos se espalhavam pelos rios e avenidas à espera do crematório, incapaz de dar vasão a mais de 30 mil mortos. O cheiro exalado pelo crematório era terrível e os habitantes protestavam. Diante dessa calamidade pública o templo Wat Saket abriu seus portões para deitar os mortos, ainda sem saber qual seria a solução.

A vida e a morte compõem extremos opostos de um contínuo que se fecha em um círculo.

Os abutres cumpriam a sua missão, o seu instinto, o seu destino. Nós temos o hábito de julgar como terrível aquilo de aparência ruim que está além da nossa compreensão. Os monges budistas contemplam a vida como ela é, sem alardes. Os abutres devoraram os corpos, impediram, que em certo grau, a epidemia de espalhasse ainda mais. Substituíram os crematórios sem provocar qualquer tipo de cheiro. Os monges contemplavam o ciclo da vida escancarado em sua frente, com serenidade e aceitação no olhar.

Os sinos encaminham as almas para o divino, afastam os espíritos maléficos e purificam almas e ambientes. Qual seria a correlação invisível disso tudo eu não sei bem, mas saí de Wat Saket diferente.

“A vida alimenta-se da morte e a morte dá início a outro ciclo de vida”">

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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Jornal Tribuna de Petrópolis.

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